quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA


De repente, me vejo envolto em nuvens como se estivesse saindo do meio da neblina e ao longe, uma figura estranha caminha em minha direção, carregando nos braços um imenso livro.

Não estou entendendo nada, até que o estranho se aproxima e diz:
- Você me conhece filho?
- Não, mas muito prazer, meu nome é Martins. O que está acontecendo?

- Não é necessário se apresentar filho, sei tudo sobre você, pode ficar calmo que está tudo bem, aliás, poderá ficar muito melhor, depende de você.
Penso: - O que? Cadê todo mundo? O que está acontecendo? Acabo de conhecer o cara, diz que já me conhece e ainda insinua algum tipo de propina! Caramba, não me lembro de ter bebido nada, ou bebi?

- O estranho diz: - Vamos por partes. Primeiro você precisa me confirmar algumas coisas que eu já tenho escrito aqui, mas preciso verificar se existe algum tipo de arrependimento de sua parte. Serão algumas, de dez questões, baseadas em alguns mandamentos que regem a casa.

Começo a ficar irritado. Por um instante a ficha quer cair, mas eu não quero aceitar. - Pera aí moço! Que p... é essa? O estranho diz: - Filho, primeiramente você precisa aceitar algumas condições. Segundo, palavrões aqui expressam raiva, insubordinação, falta de humildade e vão para o cômputo final desta avaliação, pois aqui só a paz e o respeito reinam. Terceiro não sou moço. Meu nome é Pedro.

- Pô, seu Pedro, o que aconteceu? Não vai me dizer que este acontecimento é o que eu estou pensando? Não aconteceu acidente algum para eu estar aqui em frente ao senhor. Fui dormir, não fiz sexo de estômago cheio, não posso aceitar essa situação. Pô, moço, digo Seu Pedro, perdão, São Pedro, é o que eu estou pensando?

São Pedro diz: - Felizmente sim, meu filho. Você terá muita utilidade por aqui, basta me responder às perguntas que eu farei, mesmo sabendo suas respostas, você ainda tem uma chance de se juntar a nós.

Digo: - Que resposta? Que chance? Que aconteceu?
Com toda a Calma, São Pedro diz: - você sempre foi muito prepotente e vivia brincando com coisa séria. Constantemente se referia a um tal tapete vermelho que estaria a sua espera ao chegar aqui, justamente por causa de umas certas pessoas que já estão aqui te esperando, e por sinal, muito felizes por sua chegada.

Primeiramente, você nunca soube se iria vir para cá e muito menos ficar, e ainda quer tapete vermelho? Com sua arrogância as coisas podem ficar muito mais vermelhas e ainda por cima quentes!
- Tá bom moço, digo, São Pedro; faz LOGO as perguntas...
São Pedro diz: - Desesperado como sempre! Tudo tem que ser do seu jeito e rápido. JÁ COMEÇA COM MENOS UM PONTO!

Falo: - Caramba!!!
SÃO PEDRO retruca: - Quer perder mais um ponto, sem responder nada?
- Não! - respondo. - Comece logo com as perguntas.
SÃO PEDRO diz: - vou começar pela décima questão. Desejou coisas alheias?
Digo: - bem, sabe como é, né?...

SÃO PEDRO: - Respondida. Menos um ponto.
- Pera aí!!! Estou pensando... nem respondi ainda!
SÃO PEDRO: - Respondeu sim, e vou lembrá-lo que isso aqui não é jogo de poker; quanto mais quiser blefar, mais vai se afundar, e, se não responder como nós esperamos que você responda vai descer.
Digo: - Oba, estou começando a gostar. Quero voltar para a terra logo.

SÃO PEDRO: - você não está entendendo nada. Descer, não significa que vai voltar a vida na Terra.
Digo: - Não “seu” Pedro, isso não. Sempre fui um cara bonzinho, nunca...
São Pedro interrompe severamente: Quem julga aqui, de certa forma, sou eu. Não vem dando uma de desesperado nessa altura do campeonato, e ainda por cima de bonzinho. Sei todas suas respostas. Você está tendo a chance de se arrepender. Pense para responder.
E, São Pedro continua: - Lá vai a nona pergunta. Pare e pense, seu desesperado. Já desejou a mulher do próximo?
Filosofei. Dr., Sabe como é, né? Na Terra, tem muito próximo que se ausenta e como sou um Oliveira, eu... NUNCA faria isso.

SÃO PEDRO: Fecha essa boca seu depravado. Em uma só pergunta, já me respondeu também a oitava questão. MENTIROSO.
SÃO PEDRO: Já vi que com você, não adianta perder meu tempo. Vou fazer a última pergunta e já faço seu julgamento em primeira e última instância.
- Pera aí, moço! Sou bacharel em direito e conheço muito bem as minhas prerrogativas. Não posso ser julgado em apenas uma instância e ...

SÃO PEDRO: - Vai reclamar para o Bispo! Pensando bem, não vou perder mais meu tempo com você. Não demonstrou humildade, muito menos se arrependeu do que fez. Foi tudo consciente. Vai descer.
Digo: - Descer não, pelo amor de Deus!

SÃO PEDRO: - OUTRO PONTO PERDIDO. Respondeu a SEGUNDA questão sem eu nem perguntar. Disse o nome de Deus em vão. Desce, desce já...
Aí, bateu um grande desespero, pois eu acabava de entender a verdadeira dimensão de minha prepotência, arrogância e desejos terrenos. Percebi que em toda a minha vida me sobrepus aos mandamentos de Deus.
- Dá uma chance para mim São Pedro, descer não. Dá mais uma chance, descer não, me dá mais uma chance.....

Sinto uma mão em meu ombro me chacoalhando com força e eu penso: - Não quero dar de cara com ELE..., não, não. A mão me chacoalha cada vez mais forte e ao longe escuto uma voz dizendo:

- Acorde, Martins, acorde! Está tendo um pesadelo.

Assim que eu me recupero do susto e acordo de verdade, faço um juramento: - Juro por..., não, não..., não juro por nada. Acabo de ter novamente a chance da minha vida. Espero aproveitá-la....

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ALÔ, ALÔ, VOVOZINHA!


Essa vida é um grande barato, que pode terminar muito bem, ou extremamente mal resolvida. Creio que a partir do momento que nascemos é necessário sermos preparados para aceitar a velhice.

Escrevendo o artigo para o blog na semana passada, me fez remexer em alguma parte do meu cérebro que evocou os anos setenta e veio com fúria total.

Por algum motivo, que só Sigmund Freud explica, lembrei-me das belas bailarinas do “Cassino da Chacrinha” que povoaram os meus sonhos eróticos, e de muitos adolescentes dos anos setenta.

Fui procurar por Regina Pintinha, Sandra Pérola Negra, Beth Boné, ÍNDIA POTIRA e Cléo Toda Pura e me deparei com um documentário recente, produzido por Nelson Hoineff, que rolou no festival de cinema de Recife e recebeu o nome de “Alô, Alô, Terezinha”.

Infelizmente, e para a minha decepção, me deparei com cinco senhoras que poderiam ser chamadas, sem exceção de “Todas Pura”; não tinham nada a ver com as gatas que soltavam fogo pelos olhos e queimavam as nossas mãos.

São senhoras para pedirmos suas bênçãos e ainda por cima beijar suas mãos, como fazíamos com nossas avós. Aonde foram parar aquelas voluptuosas mulheres?

Desencantei, e por curiosidade fui procurar uma mulher mais velha, mas ainda assim, sonhei muito com ela... Brigitte Bardot. Caramba, não percebi que o tempo passou para ela também. A linda loirona de seios fartos e cintura fina tem 75 anos. Passou a ser uma lenda viva!!!

Não satisfeito, pensei: “Homens não ficam velhos tão rápido como as mulheres” (pensamento machista e típico dos caras dos anos 70), e resolvi ir atrás da foto do mulherengo eterno Hugh Hefner, o dono e criador da revista Playboy, para compará-lo com o Hugh de hoje e ver se muita mulher para um homem só, fez bem ou mau.

O cara tá acabado, não sobrou resquício do jovem bonitão e galã, que para variar, vivia cercado de mulheres já naquela época. Não tem nada com o vovô de hoje. Tá certo, que vovô com as vovós que moram com ele hoje, ainda vai, mas o cara acabou...

Isso me levou a refletir e retornar ao início do texto, onde falo que devemos ser preparados para a velhice, pois sinceramente, não consigo enxergar nessas simpáticas vovozinhas as gatas eróticas da juventude de setenta. Ainda Bem que Deus é justo, e não deixou o tempo passar para mim...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SOB O SIGNO DO PASSADO

Nei, Sergio, Daniel, Nelsinho e Labão

Aos dezenove anos, vivendo uma juventude plena onde vale tudo, eu e amigos estamos curtindo a irresponsabilidade de sermos jovens.

Cabeludos, o que dá nome a equipe “Tarântula”, com nossos carros rebaixados e a testosterona a mil, nos encontramos aos fins de noites em um bar de esquina, para comer pizza e contar as peripécias e conquistas da noite. Como a pizza “meio-a-meio”, que se degusta naquele instante, metade do que se diz é exagero, como tudo que se faz na adolescência.

Conhecemos como nunca as particularidades de cada um dos amigos, de cada uma das conquistas, de cada um dos sonhos, e, vivemos a jovialidade plena cheia de entusiasmo e desejos.

Muitos bailes de formatura, muitas idas a Santos, festivais de Rock em Iacanga, Bauru, acampamentos em Iporanga, Peruíbe, Interlagos e a liberdade de ser redundantemente livre...

Uma liberdade assistida muito ao longe pelos nossos pais, que sem angústia nem estresse, nos aguarda chegar de madrugada e conseguem dormir o sono de Morfeu.

Imaginem entrar neste exato momento, em um túnel do tempo e ao sairmos do outro lado nos depararmos com a morte de Jimi Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, de Albert Hofmann, o pai do LSD que fez a cabeça do Hippies, e mais, com o fim de nossas magrezas e imensas cabeleiras!

Para muitos seria uma tragédia, mas para outros como nós, a alegria de viver nossa eterna juventude. Foi justamente o que aconteceu com nossa turma de jovens.

Após trinta e cinco anos, nos deparamos com os grandes amigos dos tempos de adolescência e temos a oportunidade divina de poder reviver uma época de ouro, tendo a certeza que todos se deram bem, constituíram famílias e nossos filhos hoje têm a idade que tínhamos quando nos conhecemos.

Muitas vezes, não observamos em vida a possibilidade de parar e pensar o que fomos, e que continuamos a ser felizes ainda nos dias de hoje. A possibilidade de viver um passado que não volta mais, um passado vivido a distância também por nossos amigos, o qual fará parte “eternamente enquanto dure”, de nossos presentes.

Graças a um destes amigos de sangue, o Daniel, estamos tendo o privilégio de nos contatar novamente.

Todos cinqüentões, garotos de espírito, torcendo por um encontro de “corpo presente”, onde voltaremos a ter novamente dezenove anos de idade, sem os exageros da juventude, nem, infelizmente, o jorro da testosterona, mas com a saudade e o respeito pelos eternos irmãos...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Educador que fez a diferença

Lá pelos idos de 60, aos sete anos de idade, comecei os meus estudos primários.

Era um bom menino, mas a escola não tinha nada comigo. A professora era cética e sem esperança. Não podia estimular ninguém. Repeti várias vezes o primário.

Os anos foram passando arrastados, até que chegou o momento de se prestar o exame de admissão para o ginásio. Muitos alunos e poucas vagas nos obrigavam a fazer um cursinho de reforço. Outro desastre.

A timidez aumentava e, desta vez, acompanhada de insegurança. Já acreditava que não era mais capaz de nada. Não conseguia passar de ano, não ia bem nos estudos e nem em escola paga consegui entrar. Uma frustração.

Depois de duas tentativas, consegui vaga em um ginásio técnico para aprender um ofício. Optei pela oficina de pintura, onde tive a sorte de conhecer um dos melhores educadores de toda a minha vida até então: o professor Moacyr.

Foi o principal responsável pela melhora de minha autoestima e pela grande habilidade que desenvolvi em ilustração.

Grande incentivador de minha profissão, foi um dos responsáveis pela minha carreira como publicitário e posteriormente como professor.

Descobri meu potencial e explorei ao máximo. Ao mesmo tempo, me questionava: por que sempre tive tanta dificuldade com os estudos e posteriormente deslanchei?

Toda esta inquietação me fez concluir que nunca em minha vida de estudante, professor algum tinha sabido me ensinar e estimular para enfrentar problemas, a não ser o “grande amigo” Prof. Moacyr, que mudou o rumo da minha história sabiamente.

Percebi que a dificuldade que eu tinha enfrentado com os estudos, em grande parte de minha vida, poderia ter sido diferente, como felizmente o foi, se algum professor enxergasse a necessidade de estímulos diferenciados, para um menino tímido, inseguro e com alguma dificuldade no aprendizado.

Esta reflexão foi muito importante para eu procurar evoluir profissionalmente e, como professor, procurar entender o semelhante e aprimorar a forma de ensinamento.

No decorrer destes quatorze anos que venho ministrando aulas, percebi que tive muita sorte em ter encontrado o meu caminho, pois o fato de ser muito desmotivado, sem uma orientação efetiva, poderia não ter explorado o meu potencial, vindo a me tornar mais um frustrado e morrendo com toda minha capacidade em estado latente.

Vejo também, que esta descoberta não coube a mim fazê-la, mais a um educador atento e capacitado, que cumpriu muito bem o seu papel social e humano.

Sou uma pessoa privilegiada, pois após quatorze anos longe daquele ginásio, onde aprendi a conhecer uma parte de mim estimulado por um atento EDUCADOR, tive a honra e a sorte de encontrá-lo, por acaso, em minha formatura.

Sem nunca esperar uma dádiva como esta, pude dizer, não sei se entendida com toda a profundidade real do fato, que ele fez muita diferença em minha vida pessoal e profissional. Tenho dúvidas se realmente entendeu o que eu falei, ou se achou que era mais uma fala igual a de muitos outros alunos, que teve no decorrer de sua vida profissional.

Aprendi a enxergar, que o verdadeiro educador poderá fazer muita diferença na vida de quem está começando ou continuando os estudos, e, com certeza, saberá ao se aposentar, que viveu efetivamente o privilégio de ter deixado uma grande marca neste mundo terreno.